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  • Dani Greco

Entre, mas não dance comigo


Fico extremamente inquieta e agitada ao me relacionar com os corpos de dança contemporânea. Falo deste mesmo lugar. Sou dançarina. De dança contemporânea. Por incrível que pareça, eu arrumei minhas malas e parti para o lado do teatro tem uns 2 anos. E ainda mais, para o teatro musical!!! Abominação para aqueles que estudam o corpo e suas relações tão profundamente. Profundamente tanto, que parecem ter se esquecido que existe um público, assim como no teatro musical. E que este público, pode ser ou não amigos e/ou conhecidos, em sua maioria são pessoas que não conhecemos, que nunca nos relacionamos, que nunca tivemos a chance de apertar as mãos.

Quando algo me incomoda, eu escrevo, para que talvez o corpo desorganize e consiga compreender 'o como' de algumas possibilidades. Este texto contém palavras ao contrário, frases redundantes, frases sem sentido talvez, para explicar uma insensatez que existe nas pessoas que hoje estão aí, no cenário da dança contemporânea. Angariando verbas e recursos particulares, para colocar os seus projetos em prática. Sim, são projeto muito interessantes, muito bem articulados, porque nós da dança, pegamos o hábito de estudar e ler muito sobre tudo. São projetos abertos ao público. Abertos? Abertos! Sim, abertos? Abertos... (reticências)

O fato mais importante em estudar o corpo, é perceber e saber agir de forma a que tudo aquilo que você aprende, compreende, modifica, em si mesmo, tenha uma eficácia para o mundo que o cerca. Algum sentido deve haver em estudar kinesfera, as relações entre corpo e espaço, a arquitetura do movimento, a velocidade dos corpos, a improvisação, pois bem, o contato improvisação, hm.... contato.

Nas aulas de contato improvisação geralmente quando ministradas por um professor que sabe o que está ministrando, ele sempre alerta que não devemos fazer os exercícios com quem já conhecemos, mas que possamos abrir o corpo para receber e trocar com o novo, com aquele outro corpo que não conhecemos, não conhecemos seu cheiro, seu peso, sua textura, os elementos que o compõem. É um desafio, mas é o desafio que a dança contemporânea propõe. (Pausa para reflexão: eu adoro escrever.)

Há anos não leio isso, essa escrita dos corpos no espaço, essa escrita de novas relações, e novos textos, e subtextos, e entrelinhas, e parágrafos, travessões. Não leio. Não leio essas frases de movimento ao me relacionar com corpos da dança contemporânea. Parecem estar tão focados e fechados em suas pesquisas que apenas permitem se relacionar com os corpos que já tem uma certa afinidade. Misturar elementos químicos muito diferentes é muito heterogêneo. Perigoso.

Volto para o contato improvisação. O público está aí, esperando para que o outro corpo se relacione com ele. Pois quem convida é quem deve recepcionar, dar as honras, se dar a conhecer, mergulhar no desconhecido que nós mesmos convidamos para nossa casa! Sim, porque o local onde pesquisamos, ensaiamos, apresentamos, é a nossa casa!

O público fica ali, ele chega, ninguém diz oi, ninguém diz: “muito prazer, seja bem vind@!” Ele chega e vai envergonhadamente no fluxo daquelas 10 pessoas que foram convidadas a parte, que já se conhecem todas, menos a vocêe mais alguns 2 ou 3, que representam o público que veio de fora, que foi convidado por uma rede social, que se diz pública. Que foi instigado a ir conferir o trabalho de artistas que admira e que todo tempo em que esteve lá, sentiu que não deveria estar, porque ninguém recepcionou ninguém. Saiu indignada, pois como pessoas que estudam o corpo e suas relações não sabem recepcionar o público desconhecido entre 12 conhecidos?

Me inquieto e volto para minha casa perguntando se o que eu tenho estudado, eu tenho praticado. Não quero ser um corpo pleno apenas em cena, quero que meu corpo seja capaz de ser pleno em todas as minhas atividades, pois sei que isto é arte, esse é o papel do artista, é transmutar a realidade, é ser capaz de ser cuidadoso com o seu público, esquecendo-se muitas vezes, ou de preferência, em todas as vezes, de si mesmo, de sua pesquisa plena, de seu currículo.

Não volto mais ao lugar que fui. Até quando o público desconhecido vai ter que agir de forma coercitiva, para que a maioria dos artistas da dança entendam, enxerguem e leiam que existe um público além dos amigos e colegas de trabalho? Até quando estarão plenos apenas em cena? Que atire a primeira pedra aquele que ao acabar o seu ensaio aberto, ou sua apresentação, apertou a mão de um desconhecido e disse: “obrigada por ter vindo”.

A arte está no entre, nas relações, na troca. A arte só existe no entre.


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