“Voar sempre, cansa - por isso ela corre em passo de dança”

Postura intacta, sentada numa espécie de balcão de madeira, lendo um livro. Parecia tranqüila e cheia de tempo. O cenário era o Centro Cultural de São Paulo. “Tudo começou aqui”. Danielle Greco é dançarina e escolheu esse cenário para contar sobre sua - nada tranqüila - vida.

 

Ainda que para ela tudo tenha começado no Centro Cultural, ela se referia a uma parte de sua vida. A outra tem caminhos bem diferentes da atual. Em 2000, Dani Greco, começou a cursar a faculdade da moda: Turismo. Segundo ela era o que todos estavam fazendo e por isso fez também. No segundo ano da faculdade conseguiu um emprego na companhia aérea TAM. Até ai tudo estava normal. Foi quando a dança, maior paixão de sua vida, entrou em cena que sua vida começou a se dividir e suas escolhas começaram a ter mais peso.

 

Seus pés pequenos, cruzados em cima do balcão mostram pra que lado a vida a levou. Mais parecida com uma menina do que com uma mulher, ela não para um minuto. De vestido longo, cruza e descruza as pernas sem parecer se lembrar da peça que estava vestindo. Em alguns momentos passa o pano pra um lado e pra outro fazendo um emaranhado de tecido. Que ao final da conversa se assemelha à ela mesma.

 

A dança entrou em sua vida quando Dani se converteu e começou a participar do grupo de dança de sua igreja. Estudava. Trabalhava. Dançava. Até que no quarto ano da faculdade foi mandada embora. Estudava. Dançava.

 

Começou a dar aulas em uma comunidade carente em Guarulhos. Se formou na faculdade. Só dançava? Não. Voltou para trabalhar na TAM em período integral, mas a dança já fazia parte da sua rotina e já tomava muito do seu tempo.

 

Dani tem a voz tranqüila. Em meio aos vários ruídos num mesmo espaço do Centro Cultural, quando o som do violão de um menino aprendendo a tocar ficava mais alto ela aumentava sua voz, quando ele parava, automaticamente, ela falava baixinho. Talvez nem tenha percebido. Mas ela se movimenta ainda que parada. Com as mãos faz coreografias ao falar. Não para um minuto, é como se ela fosse maestria das palavras, enquanto estas dançassem enquanto contavam sua história. Conta as coisas boas com a mesma intensidade que detalha as coisas ruins.

 

No meio do ano de 2006 seus pais se separam. Na TAM “eu não podia fazer nada, tinha hora pra ir ao banheiro. Aquilo não tinha nada a ver comigo”. Como diz o pensador: “Voar sempre, cansa [...]”. O grupo de jovens da igreja tomava muito do seu tempo e pra ajudar, surgiu um convite para passar um mês em Nova Iorque, dançando e evangelizando.

 

Com 26 anos, Dani entrou em uma “super crise” como ela mesma definiu o momento, rindo. Entrou em depressão e viu sua vida se esvair. “Tinha vontade de morrer”. Ela ganhava muito bem, estava dentro de sua área e… E então descobriu que sua área não era o turismo, seu veneno era o trabalho, seu remédio era a dança. Pediu demissão e foi para Nova Iorque.

 

A dança tomou conta de sua vida. Mas não tinha um emprego fixo, somente mesclava projetos paralelos em conjunto com projetos missionários. Decidiu então que precisaria fazer mais. Sem medo de errar e de escolher, Dani começou a trabalhar em várias vertentes da arte: musicais, teatro infantil, comerciais, figurações e sempre, a dança. “Acordei para outro lado da arte e resolvi me profissionalizar. Comecei a me inscrever em vários cursos de dança e de balé aqui no Centro Cultural.” Por isso para ela o lugar era simbólico. Diz que foi um período de amadurecimento, passou a aceitar diferenças, a entender ela mesma.

 

Hoje sua vida não pára: possui projetos que vão desde a dança à produção de teatro infantil, além da faculdade de Artes do Corpo, na PUC-SP. “[...] por isso ela corre em passo de dança”. Mas para chegar ai teve muita luta, muito aperto, muita perda. Teve e tem um preço. Seus olhos verdes não falam com pesar do valor desse sonho, ao passo que brilham intensamente quando revelam o que a dança é pra ela. “Abri mão da minha vida pessoal. Larguei muita coisa pra dançar”. Ainda sonha com o casamento, em ser mãe, mas “quem é o doido que vai namorar comigo?!”, brinca a bailarina.

 

Que encerra com a afirmação de que “quando você faz o que gosta, qualquer coisa compensa”. De estatura pequena aos 29 anos, rostinho de boneca, pés machucados, e bagagem de uma grande mulher, é facilmente convincente. Sua força física se mistura com a força das suas palavras, a força e sensibilidade da sua personalidade. Fez escolhas e pretende não parar.

Please reload

Featured Posts

Teoria-Prática

September 21, 2018

1/10
Please reload

Recent Posts

September 21, 2018

January 24, 2017

January 27, 2016

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags