as funções memória e correlação nos processos criativos do corpoambiente

April 24, 2015

“O estado atual é feito de acordo com os estados passados, manipulados pela memória do sistema.” (BUNGE. Tratado Básico de Filosofia VL.4, pg. 247)

 

Todo sistema tem uma memória, seja este vivo ou não vivo. Memória entende-se aqui não por estocagem, mas a maneira como o sistema elabora a informação. Memória é transiente e não estática, se dá pela genética e orienta nossa existência, ela pode ser conservadora ou adaptativa e é esculpida por ambientes e experiências que o sistema vive.

 

Dado um sistema este possui propriedades, e quanto maior for sua complexidade, mais propriedades ele possui, porém não há como conhecer todas, assim, elegem-se algumas variáveis relevantes que o melhor representa. As propriedades não se alteram, o que muda é a intensidade com que estas se manifestam, ou seja, sua variação no tempo.

 

Portanto, sistemas sempre se encontram em algum estado, entendendo-se por este a coleção de intensidades de suas propriedades em determinado instante de tempo. Se o sistema é aberto, com o passar do tempo estes estados vão se alterando de acordo com a internalização dos signos representativos presentes nos ambientes vividos. Se ele ignorar os estímulos do ambiente ao seu redor, o estado será uma construção feita a partir da memória do sistema, a elaboração de estados passados.

 

A internalização de relações em sistemas abertos provoca alterações em seus estados, gerando a instabilidade, comprometendo a permanência do sistema. Os elementos vão se tornando internos progressivamente, até esta coleção se tornar hábitos. Esta elaboração traz o conceito de tempo da irreversibilidade, onde um sistema está sempre elaborando suas propriedades de modo que os estados gerados nunca são os mesmos já vividos, pois a coleção já adquiriu novas formas.

 

Sendo o corpo do ser humano um sistema aberto que se relaciona a todo instante com o ambiente, um sistema complexo que elabora a intensidade de suas propriedades no tempo, este cria coerência de sua memória com o mundo. É uma relação da parte com o todo, construindo significados, formas. Quando o critério de coerência muda, o sentido muda, surgindo uma nova coerência. Há um estímulo e uma resposta, causa e efeito, do corpo para com o ambiente e do ambiente para com o corpo, são efeitos distintos que mantém uma relação, juntos causam algo, há uma memória partilhada.

 

Entendendo o corpo como sistema aberto e a memória deste elaborando estados passados em relação com o ambiente, desloco esta informação para os processos de criação do corpoambiente, fazendo um contraponto com três pesquisas minhas intituladas: “Aquarela”, “(I)Racionar o Ambiente” e “Atravessamentos”. As três tratam das memórias e estados corporais em relação com o ambiente e vice versa, o grau de afetação de um para com o outro tal como a internalização de signos representativos do ambiente que podem gerar movimentos e formas neste corpo permeável.

 

Corpoambiente aqui se entende pelo espaço ocupado pelo corpo do artista, pelo corpo de quem assiste e pelos corpos e signos presentes no espaço-tempo em que a pesquisa se dá. Esta complexidade é determinante para uma possível troca e diálogo, criando coerência e estética no todo.

 

Durante as pesquisas, fica clara a relação entre ver e ser visto, e como estes olhares deslocam a pesquisa, por vezes para lugares antes nunca experimentados. O diálogo e a internalização das experiências e as colaborações de cada corpo geram mutações e hibridismo na experimentação, enriquecendo o corpoambiente, resignificando movimentos, formas e impregnando de sentidos as pesquisas em questão.

 

O corpo, “administrador” e colecionador destas informações/signos do ambiente, entra em crise ao colidir com corpos heterogêneos, sendo afetado e contaminado por tais memórias. O corpo se vê, vê os outros, os outros se vêem, e se vêem neste, é um diálogo de corposambientes, um sistema aberto, eficiente, coerente, estético, onde este estético é o verdadeiro, e o verdadeiro o corpo presente, a consciência das relações.

 

Portanto, revisitando as propriedades do sistema e os ambientes com que este se relacionou, prevê-se que o estado corporal nunca será o mesmo e os espaços construídos por estas transformações exteriorizam sensações, memórias, histórias de corposambientes, corpos estes que são parte do todo, que resignificam os instantes. A irreversibilidade do tempo e a intensidade das propriedades mudam a cada instante, fazendo com que o sistema reelabore a informação a fim de alcançar a permanência e coerência em seus processos criativos.

 

“A performatividade se caracteriza por movimentos inquietos, questionadores, aqueles que não se satisfazem com respostas já dadas e trabalha para perturbar o domínio do, o quê, para quê, quem, porque, em favor de um como que precisa ser sempre construído. Não tenta fixar o presente, desloca-o. Traz ao presente marcas passadas e indica, no mesmo presente, marcas futuras.” (Do livro ‘O Fazer-Dizer do Corpo – Dança e Performatividade’ de Jussara Setenta)

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