casa 24 - um “entrecorpolugar”

April 24, 2015

“O lugar que você está é o lugar que você mora.” D.G.

Ladeira Frei Orlando (15/01/2013)

 

São tantas as memórias e as surpresas que esse lugar me deu que seria impossível traça-las em algumas linhas, ou em uma pauta, ou numa folha qualquer. São experiências que atravessaram meu corpo por inteiro e as palavras não dão conta de tantos sorrisos, gentilezas, disponibilidade e criação. A experiência então vai muito mais além de uma hipótese de iniciação científica e/ou de uma residência artística.

 

Eu, buscando provar que o corpo é ‘entre-lugar’ de cultura, como diz Homi Bhabha em seu livro “O local da cultura”, pude ter provas bem mais resistentes que apenas a palavra que se forma na mestiçagem entre corpo e cultura. “Entrecorpolugar” foi onde estive por 1 mês, compartilhando na Casa 24 a diversidade de culturas e acontecimentos. Tentando traçar um perfil desse ‘entre’, na passagem entre as culturas de São Paulo e Rio de Janeiro, descobri um ‘entre-lugar’ entre a Lapa e Santa Teresa: a Casa 24.

 

Foi quando percebi e me dei conta que a Casa 24 era minha casa também, pois a cultura daquele lugar se mestiçava com a minha cultura e, com todos os atravessamentos, me senti em casa. Descobri que a cultura acontece em instantes, um instante em que você passa e olha para alguém, um instante em que se senta à mesa para comer todos juntos, em um instante onde se aprende a reciclar lixo, um instante em que se cuida de gatos que você em tão pouco tempo amou tanto, em instantes em que você habita um espaço, compartilha-o, vive intensamente os instantes presentes. Morar é viver, estar, compartilhar, é casa.

 

“Acordei e saí de casa bem cedo, estava chovendo. Enquanto descia a escada, do meu lado direito vinha subindo uma menina de cabelos cacheados que me olhou fixamente nos olhos, ela tinha nas mãos um saco de pão daqueles que nem tem o nome da padaria, um saco inteiro marrom. Ela continuou a subida e eu a descida, na minha frente um pão, pedaço de menina. Parei e fiquei ali olhando o pão derreter na chuva. (Escadão da Frei Orlando é o quintal da nossa casa, quem passa deixa memória.)” L.M. / D.G. (21/01/2013)

 

A casa, a rua, a ladeira, o bairro abaixo e o baixo acima era o corpo, era o ‘entre-lugar’ de cultura, onde as coisas coabitavam, onde olhares e risos, conversas, eram compartilhadas, um sobe e desce de gente, um sobe e desce de cultura, um sobe e desce de mestiçagem, de acontecimento, atravessamentos. Memórias iam e vinham, ficavam, atravessavam e me fizeram compreender que eu sou o entre-lugar, que por onde passo, construo e levo casa, construo e levo cultura. Meu corpo é lugar. Meu corpo é o outro também.

 

E em um mês de chuva, de muito calor, de muito cuidado, de muito processo criativo, uma palavra se mantém viva sobre a Casa 24: “entrecorpolugar”, assim como o batente de uma porta.

 

“Na minha casa tem uma goteira bem no batente da porta, no alto, toda vez que chove eu tenho que colocar uma toalha, de banho, rosa, dobrada 3 vezes. (Na nossa casa é assim.)” D.G.

 

Por Danielle Greco | Projeto estadosDEpassagem

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