Nada Impede

January 27, 2016

 

Este texto se relaciona com a matéria publicada no Blog crtl+alt+dança. Confira aqui!

 

Nada impede é a tradução do latim “Nihil Obstat”, primeiro espetáculo da trilogia “Imprimatur” (em latim, deixem-no ser impresso), o novo projeto da J.Gar.Cia Dança Contemporânea, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo. Imprimatur é uma declaração da Igreja Católica, que diz que um trabalho literário ou similar não vai contra as ideias da igreja e que é uma boa leitura para qualquer católico. A trilogia então mapeia as fases do diretor e coreógrafo Jorge Garcia, revisitando e refletindo sobre a seleção e a legitimação de uma obra de arte.

 

“Nihil Obstat”, uma obra que aspira ser publicada, que se mostra como um jogo de tensões entre vontades, escolhas, permissões. Assim se inicia a trajetória proposta por Jorge Garcia nesta trilogia. Em um espaço alternativo, onde atividades do fazer artístico e do cotidiano se mestiçam, uma casa-residência transformada em centro cultural, em lugar de encontro, de percepção, de ação. O espaço do público é o quintal de uma casa, entre a cozinha e o “palco”, onde é possível saborear sensações gastronômicas e artísticas simultaneamente. Tensões espaciais, vetores de forças expandidos na meia luz do quintal de uma casa.

 

As paredes do lugar onde o artista propõe a experiência estão repletas de frases, informações, palavras, desenhos, trajetórias, há tropeços. Abre-se uma brecha no cotidiano do público para refletir sobre composição coreográfica em jogos de espacialidade que integram música, luz, brincadeira, vida e morte. O bailarino se relaciona com elementos da arquitetura, com um cavalo preto de brinquedo, que não cessa de caminhar, caixas de som, feixes de luz, uma escada, paredes, o público ali observando atentamente.

 

Durante o espetáculo começo então a refletir sobre os mecanismos e programas de ação/pensamento/movimento que o artista utiliza para criar a obra em questão. Coreografia, a pesquisa de movimento e os campos relacionais de corpo-espaço, vão sofrendo ao longo do espetáculo mudanças radicais de estado corporal, levantando questões importantes sobre a produção atual em dança contemporânea.

 

Como dar luz à uma pesquisa de movimento própria, à uma trajetória artística? Como dar luz à historia das coisas e de espaços com os quais nos relacionamos? Como desprogramar o movimento? Como desprogramar os mecanismos atuais de produção, as linhas de forças e vetores de uma mão só, a realização de dança contemporânea brasileira?

 

Saio da casa 35 na Rua Capital Federal com os questionamentos acima, trazendo-os para a minha casa, para o meu cotidiano, para minha trajetória como artista-público. Julgamentos, permissões, deferimentos, inabilitações, são palavras que a dança contemporânea está sujeita, que eu estou sujeita, como então desprogramar este movimento?

 

Talvez a trilogia possa trazer contribuições para estes pensamentos, possibilitando a compreensão de uma arte onde a parte não se explica solo, mas sim no todo, no espaço relacional e na desprogramação de padrões e hábitos de construção e produção artística. Vale então aguardar para conferir o próximo espetáculo: “Imprimi Potest” na casa 35. Pode ser impresso?

 

O espetáculo voltou e fica em cartaz até 31 de Janeiro em SP. 

 

Confira outros espetáculos que estão em cartaz até o fim do mês de Janeiro no blog do crtl+alt+dança: http://ctrlaltdanca.com/2016/01/23/rj-sp-ba-a-danca-do-final-de-semana/ 

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