Composição Coreográfica: Análise de composição entre Café Muller de Pina Bausch, Adriana Banana em Trishapensamento e Planos de Composição de André Lepecki

October 11, 2017

 

Café Muller de Pina Bausch: https://www.youtube.com/watch?v=WZd2SkydIXA

Sobre o livro de Adriana Banana: http://revistadedanca.com.br/trishapensamento-danca-fora-do-conforme/

Trisha Brown em "Roof Piece": https://www.youtube.com/watch?v=6UN4DrkrL9E

 

 

Portas e janelas grandes, transparências, vidros embaçados. Porta giratória. Mulheres que caminham em pequenos passos e compassos, lentos e rápidos. Suas trajetórias em linhas retas, atravessando o espaço de um lado ao outro, levando as cadeiras ao seu redor ou indo em frente, obrigando um homem a remover cadeiras para que a passagem esteja fluída. Camisolas e movimentos nas paredes, dois homens observam. Movimentos sequenciados. Olhos fechados. A música é ópera, a letra fala sobre o que foi, sobre um partir, sobre alguém que não irá voltar, sobre uma tristeza, mágoa, saudade, desejos de retorno. Os tons opacos na cenografia e figurino.

 

“Um plano de composição é uma zona de distribuição de elementos diferenciais heterogêneos intensos e ativos, ressoando em consistência singular, mas sem se reduzir a uma ‘unidade’. (...) Planos entrecruzam-se, sobrepõem-se, misturam-se, entram em composição uns com os outros, atravessam-se.” (Lepecki)


Atravessar, pausar, observar, sair, voltar. Com movimentos leves, flexíveis, pontuados, movimentos diretos, sustentados. O agarrar e soltar, deixar. Relações de peso, entregar, carregar. Repetições. Simultaneidade. Coralidade. Tudo é espaço. Espaço do corpo, corpo do espaço. Interpenetram-se, sobrepõem-se. Há um processo tensional entre objetos, corpo, movimento. É relacional e não singular. A simultaneidade das cenas não anula nenhuma, todas estão em constante relação, mesmo que o espectador no vídeo não veja o que acontece nos cantos, no centro, nas ‘coxias’ enquanto a ação central está em outro espaço.


O trabalho acontece em uma caixa preta, mas essa pensada com arestas, ou seja, o que acontece fora, nas coxias, também é cena, o movimento é inestancável e a composição convida o olhar do público a ver ações simultâneas, detalhes. Os corredores de luz e focos que são trabalhados ressaltam os detalhes espaciais e determinadas ações que acontecem fora do foco central da cena moderna. Pina então trabalha com o deslocamento da caixa preta, uma tentativa de quebra, ‘luciferando o cubo’ como cita Adriana Banana, um desenquadramento de ações.


“...espaço não pode ser uma fatia ortogonal estática em relação ao tempo e definida em oposição a ele. Se movimento é a realidade em si mesma, então aquilo que pensamos ser espaço é um corte através de todas aquelas trajetórias; uma simultaneidade de histórias inacabadas.” (Adriana Banana)


É exatamente esse pensamento que traduz a obra de Pina. Café Muller desloca a cena para pontos simultâneos, de modo a luciferar o olhar do espectador, quebrando com a perspectiva e o ponto de fuga, adotados no Renascimento. Pina coloca o movimento em cantos, em paredes, atrás de vidraças, o ‘vazio’ do palco então é permitido ser olhado vazio, pensando nessa ideia de que vazio espacial não mais é compreendido na contemporaneidade como o vazio ocupacionista.


Pina quebra o quadrado branco de Feuillet, conceito que apresenta Lepecki em seu texto. Em 1700, Feuillet publica Choréographie ou l´Artde Décrie la Danse, par Caractères et Signes Démonstratifs; nessa obra a palavra coreografia aparece pela primeira vez, traçando um paralelo e um isomorfismo escrito entre o chão onde a dança acontece e a página em branco do livro. Formata-se o bidimensional da folha de papel ao tridimensional da sala de dança, o corpo traça linhas sobre o plano da folha/chão, ressaltando a geometria do corpo que dança em sua fluidez sobre um plano liso, é o que diz Valéry: ‘a condição primeira para a dança acontecer é a terraplanagem.’


Assim, os ‘tropeços’ que Lepecki cita foi pensado por Pina na obra em questão, um bar repleto de cadeiras e mesas, portas, paredes de vidro, uma tentativa a se desenvolver uma nova relação com o chão, com a cena, com a disposição de ações corporais. O movimento do corpo foi também desenquadrado, uma vez que as relações entre homem e mulher foram deslocadas, homem carregando mulher, mulher carregando homem, mulheres com movimentos por vezes violentos. E é como diz um trecho da ópera em Café Muller: “...deixar o corpo se perder...”; deixar o corpo tropeçar, compor, realizar, repetir, reinventar.

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