Teoria-Prática

September 21, 2018

 

A partir da técnica de Viewpoints atravessada pelos estudos em Artes do Corpo (Dança, Teatro, Perfomance), minhas metodologias de aula propõem um lugar para a improvisação e comunicação pessoal e coletiva, permitindo a construção de novas estruturas e composições corporais, sonoras, e de movimentação, fomentando a consciência de um corpo singular e plural.

 

Sobre Viewpoints

Viewpoints são pontos de atentitividade, um estado imediato e sutil de atenção, de escuta de si e do espaço, é uma filosofia traduzida por Anne Bogart em técnica de jogo para treinar artistas, atletas, construir coletivos, permitindo a criação de movimentos inteligentes, potencializando a atuação em grupo e a composição cênica. O trabalho se baseia na categorização do Tempo-Espaço, que os sistematiza em subcategorias onde Tempo refere-se a: Velocidade, Duração, Resposta Cinestésica e Repetição; e Espaço: Forma, Gesto, Arquitetura, Relação Espacial e Topografia, e Voz. Viewpoints trata da importância da apreensão e percepção do corpo em relação a outros corpos e seu espaço, criando uma espécie de jogo relacional a partir da abordagem do participante como um ponto de vista que se reconhece como parte de um todo maior, e que depende do outro para criar composições. A técnica, portanto, age de forma a abrir espaço para um corpo criador de movimentos próprios, de ações e reações, estados e sensações, de modo a dar a perceber ao participante novas capacidades de ação nos espaços onde este corpo habita, se locomove e cria.

 

Klaus Vianna/Educação Somática/Consciência Corporal

Entendemos o corpo como um rizoma, onde não existe um centro e sim vários, que se inter-relacionam criando fluxos que possibilitam autonomia para o movimento conforme a necessidade da relação de corpo-espaço. Como diz Regina Miranda em seu livro Corpo-Espaço: “Corpo-sem-Lugar possuirá não um, mas vários centros em constante deslocamento e transformação.” Para isso, utilizando os estudos somáticos de Klaus Vianna, sempre é proposto um breve mapeamento do corpo, de suas estruturas e possibilidades - expansão e contração dos espaços articulares, vetores de movimento, o peso, a relação com o chão e com outros corpos - possibilitando e aprontando um corpo presente e poroso para a relação consigo mesmo e com os outros.

 

Sobre Rudolph Laban

Rudolf (Jean-Baptiste Attila) Laban, também conhecido como Rudolf Von Laban (15 de Dezembro de 1879, Pressburg, Áustria-Hungria, foi um dançarino, coreógrafo, considerado como o maior teórico da dança do século XX, dedicou sua vida ao estudo e sistematização da linguagem do movimento em seus diversos aspectos: criação, notação, apreciação e educação. Laban inicialmente estudou Arquitetura na "Escola de Belas Artes de Paris", interessando-se pela relação entre o movimento humano e o espaço que o circunda. Aos 30 anos mudou-se para Munique e sob a influência seminal do dançarino/coreógrafo Heidi Dzinkowska passou a se dedicar à arte do movimento. Em 1915 Laban criou o Instituto Coreográfico de Zurique, que teve ramificações na Itália, na França, e na Europa central. Em 1928 publica "Kinetographie Laban", uma de suas grandes contribuições para o mundo da dança e da compreensão do movimento. Neste livro articula os princípios da "Labanotation" um dos principais sistemas de notação de movimento utilizados atualmente.

 

-Símbolos da Labanotation-

O retângulo ao centro representa a posição estática, as figuras ao redor representam movimentos para frente, para trás, para direita, para esquerda e para as quatro diagonais. Suas teorias sobre o movimento e a coreografia estão entre os fundamentos principais da Dança Moderna e fazem parte de todas as abordagens contemporâneas de dança.

 

Na Inglaterra redirecionou o foco de seu trabalho para a industria, estudando o tempo e a energia despendida para realizar as tarefas no ambiente de trabalho. Desenvolveu assim, métodos que auxiliassem os operários a se concentrar nos movimentos construtivos necessários para a realização de seu trabalho, publicando os resultados de sua pesquisa no livro "Effort" (1947) após a Segunda Guerra Mundial. Coreógrafos como Pina Bausch e William Forsythe, também trabalham na mesma linhagem.

 

Junto com o industrial F.C. Lawrence, desenvolveu uma metodologia de análise do movimento - "Effort-Study" (estudo dos esforços). Esta abordagem, apesar de ter sido direcionada primeiramente para a seleção e treinamento de operários, possibilitou uma melhor compreensão da movimentação humana geral. A partir deste estudo, Laban chegou à formulação de uma minuciosa análise dos elementos de movimentos e suas combinações. Atribuiu o nome de Corêutica ao estudo da organização espacial dos movimentos, e de Eukinética ao estudo dos aspectos qualitativos do movimento (como seu ritmo e dinâmica).

 

As concepções expressas por Laban sobre o movimento humano causaram grande impacto e passaram a influenciar os trabalhos desenvolvidos em áreas tão diversas como Educação, Psicologia, Fonoaudiologia, Teatro, Dança, Música, Artes e Educação Física. Juntamente com sua colaboradora, Lisa Ullmann, passou a aplicar estes conceitos na dança educativa. Na Inglaterra, a Dança passou a fazer parte do currículo das escolas a partir da década de 40 e, nos Estados Unidos, das escola elementar às universidades, o Sistema Laban se constitui como o saber mais difundido. Até hoje seus ensinamentos continuam sendo transmitidos no mundo inteiro através de Centros e Universidades, as instituições Laban de maior importância são o LABAN, em Londres e o Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies, em Nova Iorque.

 

 

A importância dos trabalhos de Rudolf Laban nas áreas de arte, comunicação, psicologia, educação, arquitetura já receberam reconhecimento universal, centros universitários, de arte, de educação e companhias de dança na Inglaterra, Estados Unidos, França, Canadá, entre outros, adotam e trabalham com os referenciais de Laban há pelo menos meio século. A abordagem da dança sob uma perspectiva labaniana permite ao artista e ao leigo compreender, desconstruir e transformar a arte da dança em seus aspectos coreográficos, técnicos e de fruição. Tendo desenvolvido seus trabalhos sobre movimento na primeira metade do século XX, é mister que hoje sua visão e idéias sejam rediscutidas e relidas sob uma perspectiva contemporânea. Desse modo, o trabalho de Laban não se perdeu no passado e continua a contribuir para a dança presente e futura.

 

 

De seus estudos utilizo a noção de Corpo-Espaço que se refere às categorias: Corpo, Esforço, Forma e Espaço, que combinados, resultam em um movimento de fluência entre dentro-fora. Procura-se observar e estar atento, curioso, às diversas manifestações de movimento, corpos diferentes, peculiaridades e diferenças, atividades diversas, enriquecendo dessa forma o nosso olhar sobre o outro e ampliando a percepção das relações corpo-espaço. Laban visa desfazer os hábitos corporais, suscitando um estado de receptividade, de presença-ausência, através de elementos vibráteis de improvisação, possibilitando uma maior mobilidade e afeto nos estados de corpo e condições motoras, rumo à uma “geografia multidirecional de relações consigo e com o mundo” (GODARD), proporcionando ao corpo uma rede móvel de conexões sensoriais que desenha uma paisagem de intensidades.

 

-Dança Coral-

Além de seu trabalho criativo e de análise da dança, Laban também se dedicou à realização de propostas de dança para as massas, desenvolvendo com esta finalidade a arte da dança coral, onde um grande número de pessoas se movem juntas segundo uma coreografia de estrutura simples, porém instigante, que permita bailarinos e pessoas leigas dançarem juntas de forma colaborativa.

 

A dança coral portanto, é uma forma de arte independente, baseada nas leis de harmoniosas formas espaciais, criadas de acordo com os ritmos específicos que o corpo em movimento descreve no espaço. O termo dança-coral nos remete aos anos 1920 na Alemanha, quando Laban dirigiu alguns rituais de dança coral no Monte Verita, Suíça, em 1917, fazendo uma clara distinção entre movimento coral e dança-teatro. O movimento coral servia para dar uma experiência de dança ao leigo, enquanto que na dança-teatro dançarinos profissionalmente treinados apresentavam a forma de arte da dança. Ele diferenciava isto de acordo com sua estrutura como orquestra, dança coral, ou câmara, incluindo danças menores como a sonata ou canção. Em relação ao conteúdo da dança-teatro, Laban não foi específico. Seus maiores alunos na Alemanha, Mary Wigman e Kurt Jooss, expressavam suas idéias da relação entre conteúdo e forma de maneira muito clara.

 

A bailarina, coreógrafa e educadora Maria Duschenes foi uma das introdutoras deste método no Brasil, tendo formado gerações de alunos que utilizam a referência de Laban em seus trabalhos de criação e em suas atividades de arte-educação. Em seu trabalho destacam-se as propostas de ensino público de dança e a realização de diversas danças corais, inclusive uma apresentada no Parque do Ibirapuera na Bienal de São Paulo.

           

Parangolés de Hélio Oiticica

Fruto das experiências de Hélio Oiticica (1937-1980) com a comunidade da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, no Rio de Janeiro, o Parangolé é criado no fim da década de 1960. Considerado por ele a "totalidade-obra", é o ponto culminante de toda a experiência que realiza com a cor e o espaço. Apresenta a fusão de cores, estruturas, danças, palavras, fotografias e músicas. Estandartes, bandeiras, tendas e capas de vestir prendem-se nessas obras, elaboradas por camadas de panos coloridos, que se põem em ação na dança, fundamental para a verdadeira realização da obra: só pelo movimento é que suas estruturas se revelam.

 

Os Parangolés ampliam a participação do público na medida em que a ação do artista pressupõe a transformação da obra, onde ele deixa de ser o criador de objetos e a contemplação passiva, passando a ser um incentivador da criação pelo público, provocando também a transformação no espectador, dado que a obra só acontece com sua participação. Trata-se de deslocar a arte do âmbito intelectual e racional para a esfera da criação, da participação.

 

Juntamente com a Dança Coral, a proposta trazida com os Parangolés é de ativar a participação efetiva na criação de uma obra arte que contempla diferentes linguagens artísticas, culminando na criação de figurinos próprios e/ou em criação compartilhada.

 

Visto isso, as metodologias propostas sempre irão no sentido de desestabilizar padrões de movimentos, preparar o corpo para a cena, jogo e prática cotidiana, fomentando a criação pessoal e coletiva de danças, cenas, sonoridades, cruzando experiências erráticas, entendendo-se como errática “a possibilidade de experiência urbana, uma possibilidade de crítica, resistência ou insurgência contra a ideia do empobrecimento, perda ou destruição da experiência a partir da modernidade” (JACQUES, 2012).

 

 

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